O CRA-SP realizou no último dia 25, em sua sede, o terceiro e último encontro do projeto Experiência ADM, reunindo profissionais registrados para um debate exclusivo sobre “O legado da Administração e seu papel transformador”. A iniciativa, que contou com dois outros encontros nos dias 11 e 18 deste mês, marcou a retomada dos eventos presenciais no Conselho e ofereceu um espaço qualificado para a troca de conhecimento, a atualização profissional e o fortalecimento da atuação dos administradores diante das transformações do ambiente organizacional.
Mais do que um projeto de relacionamento, a promoção do Experiência ADM reforçou o compromisso institucional do CRA-SP com o desenvolvimento contínuo dos profissionais da área, estimulando uma visão estratégica, ética e alinhada às demandas contemporâneas da sociedade e do mercado.
Ao abrir o evento, o Adm. Alberto Whitaker, presidente do CRA-SP, lembrou aos participantes a importância do tema. “Debater as questões ambientais, sociais e de governança se tornou imprescindível para os profissionais que desejam entender a complexidade das organizações de todo o país. Mais do que isso, é por meio desse conhecimento que poderemos nos desenvolver de forma responsável, plural e diversa”, destacou.
ESG como estratégia de negócio
A programação teve início com o painel ESG, reunindo especialistas para discutir a evolução do tema e seus impactos na gestão das organizações. Participaram do debate Fernando Lage, head da Prática de Advisory Regional Centro na KPMG Brasil (Interior de SP, Centro Oeste, Sul); Patrícia Garrido, especialista em Liderança Estratégica e Inovação Sustentável; Roberto S. Gonzalez, Governance Officer, conselheiro e consultor; e Sonia Karin Chapman, professora, conselheira, especialista em Sustentabilidade, Economia Circular e Avaliação de Ciclo de Vida; que trouxeram diferentes perspectivas sobre sustentabilidade, governança e responsabilidade corporativa.
Logo na abertura das discussões, os convidados deixaram claro que o ESG já ultrapassou o campo das obrigações regulatórias. “Muito mais do que atender a um requisito regulatório, é uma questão estratégica, de sobrevivência dos negócios”, destacou Lage.
Os painelistas ressaltaram que a incorporação do ESG exige uma mudança de mentalidade por parte das organizações, especialmente no que diz respeito à integração dos fatores ambientais, sociais e de governança à estratégia empresarial. Nesse contexto, a liderança assume papel central. “Não é uma questão de estrutura, mas de intenção. A liderança precisa puxar a responsabilidade para si sobre coisas que parecem estar longe, como as mudanças climáticas, mas que já impactam o negócio hoje”, disse Patrícia.
Outro ponto de destaque foi a necessidade de ampliar o entendimento sobre o ESG, evitando abordagens simplistas. Os especialistas chamaram a atenção para a complexidade do tema e para a importância de uma visão sistêmica, que considere toda a cadeia de valor.
Nesse sentido, a análise do ciclo de vida de produtos e serviços foi apresentada como uma ferramenta essencial para garantir transparência e identificar impactos ao longo de todo o processo. “Ela mensura todo o impacto ambiental desde as matérias-primas até o descarte e dá transparência a todos os atores envolvidos, evitando que apenas se mude o problema de um elo para o outro”, explicou Sônia. A abordagem, mostrou a especialista, permite compreender que os efeitos ambientais e sociais não estão restritos apenas à operação direta das empresas.
Governança é item fundamental
A governança foi um dos tópicos predominantes no painel, permeando diferentes aspectos da agenda ESG. Entre os pontos mais enfatizados pelos painelistas, destacou-se a necessidade de ampliar a transparência nas organizações. Para Sônia, esse movimento passa, necessariamente, por uma comunicação mais honesta e consistente: “As empresas também precisam falar em seus relatórios sobre aquilo que tem a melhorar e reconhecer que não se é bom em tudo. Ninguém é”, defendeu.
Nesse contexto, Gonzalez chamou atenção para a centralidade da governança como eixo estruturante das decisões organizacionais. “A governança é uma só. Quando a gente fala nela integrada, é o processo de tomada de decisão levando em consideração todas as variáveis: econômicas, sociais e ambientais”. A partir dessa perspectiva, o especialista reforçou que o olhar socioambiental deve estar incorporado de forma transversal à gestão uma vez que “não se discute nenhum assunto sem ter o olhar socioambiental presente”.
Sob essa mesma lógica de integração e amadurecimento das práticas corporativas, a discussão avançou para as crescentes exigências do mercado em relação a certificações, relatórios e métricas de desempenho ESG. O cenário, cada vez mais complexo, demanda dos administradores atualização constante e preparo técnico para lidar com um ambiente regulatório e competitivo em transformação.
É nesse ponto que a gestão de riscos ganha protagonismo. Ao abordar o tema, Lage destacou seu papel na sustentação e antecipação de cenários. “A gestão de riscos precisa estar no centro da estratégia das organizações, antecipando cenários e apoiando a tomada de decisão em um ambiente cada vez mais dinâmico e incerto”, defendeu.
Capitalismo consciente e a evolução do papel das organizações
Após o painel e o momento de networking entre os participantes, o evento seguiu com a palestra de Hugo Bethlem, presidente do Conselho de Administração do Capitalismo Consciente do Brasil, que trouxe uma reflexão aprofundada sobre a evolução histórica do capitalismo e seus desdobramentos na sociedade atual.
Bethlem iniciou sua fala contextualizando o impacto do capitalismo ao longo dos séculos, destacando sua contribuição para o desenvolvimento econômico e social. “Isso mudou drasticamente graças ao capitalismo”, afirmou, ao citar indicadores como a redução da pobreza e o aumento da expectativa de vida .
Ao mesmo tempo, o palestrante chamou a atenção para os desafios do modelo tradicional e a necessidade de transformação. Segundo ele, o foco exclusivo no lucro já não atende às demandas da sociedade contemporânea. “Não é lucro ou propósito. É o que a gente chama de propósito com performance.”
A partir dessa perspectiva, Bethlem apresentou os princípios do capitalismo consciente, destacando a importância de as organizações gerarem valor para todos os seus públicos — colaboradores, clientes, fornecedores, sociedade e meio ambiente. “Um negócio é bom quando ele cria valor para as pessoas e para o planeta”, ressaltou.
O palestrante também enfatizou o papel da liderança nesse processo de transformação, defendendo uma atuação mais humanizada e responsável, com um olhar direto para os colaboradores, que, segundo ele, são quem cuidam dos clientes e trazem retorno à empresa.
Outro ponto relevante foi a relação entre ESG e governança, destacando que mudanças estruturais nas organizações devem começar pela forma como elas são geridas e lideradas. Além disso, Bethlem abordou as transformações trazidas pela sociedade do conhecimento, que redefiniram as relações entre empresas e indivíduos.
Ao ampliar o conceito de sustentabilidade, o palestrante reforçou que o tema vai além das questões ambientais, envolvendo também aspectos humanos e sociais. “A verdadeira sustentabilidade requer não apenas a gestão ambiental, mas também um profundo comprometimento em nutrir o espírito humano e promover a colaboração entre todos os stakeholders” .
Encerrando sua participação, Bethlem propôs uma reflexão sobre a mudança de paradigma nas organizações, contrapondo a lógica da escassez à visão de abundância, baseada em colaboração, inovação e geração de valor compartilhado.
Fortalecimento da Administração diante dos desafios contemporâneos
Ao longo dos seus três encontros, o projeto Experiência ADM reuniu mais de 200 profissionais de Administração na sede do CRA-SP, evidenciando a importância de espaços de diálogo qualificado, nos quais teoria e prática se encontram. Iniciativas como essa contribuem para ampliar a capacidade crítica, fortalecer competências e estimular uma atuação mais consciente e impactante desses profissionais nas organizações.
No próximo mês, o CRA-SP irá ampliar sua atuação junto aos registrados em mais um ciclo de eventos presenciais, desta vez nas cidades de Santos, Campinas e Ribeirão Preto. Saiba mais sobre os encontros, que fazem parte do projeto Conexão CRA-SP, neste site.