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Notícias 11 set 2017 dev_braso

Por que procrastinamos tanto?

Por que procrastinamos tanto?

O brasileiro sempre deixa tudo para a última hora. Este, que poderia ser apenas mais um ditado popular, na verdade é um problema grave que atinge grande parte da população. Todos os dias milhares de pessoas procrastinam alguma coisa: a entrega da declaração do Imposto de Renda sempre adiada até o último minuto, a resolução daquele problema que ficou para amanhã, a ligação que deveria ter sido feita e não foi e, até mesmo, o término daquele relacionamento que já não existe há muito tempo. Em todos os aspectos e áreas da vida, o brasileiro, e não só ele, tem sempre uma desculpa para deixar para outro momento aquela ação que deveria ter sido tomada hoje.

Com a internet e as diversas formas de distração que ela proporciona (como redes sociais, vídeos, mensagens instantâneas e informações a todo minuto), o problema da procrastinação cresceu ainda mais. De acordo com uma pesquisa realizada pela Kapersky Lab no final do ano passado em 12 países, 78% dos usuários de mídias sociais já pensaram em apagar seus perfis e, entre o motivo mais citado (com 39% das opiniões), estava justamente a perda de tempo decorrente do uso destes canais.

Motivos

Antes, porém, de sair por aí culpando os tempos modernos, é preciso entender o que nos leva a empurrar para depois as nossas atividades. Para Carolina Cabral, gerente de divisão da Robert Half, o principal motivo da procrastinação tem nome: falta de planejamento. “A partir do momento em que colocamos nossas ações dentro de uma rotina diária ou semanal em nossa vida, conseguimos realizar aquela atividade que certamente iríamos adiar. Além disso, com o planejamento conseguimos saber que, após realizarmos alguma coisa, ainda teremos tempo para fazer outras ações que também estão programadas”, explica.

A analista comportamental e master coach Elaine Cruz mostra que, no entanto, a origem dessa conduta pode estar muito além disso. “Vários fatores influenciam a procrastinação e geralmente achamos que a pessoa é desorganizada ou não tem determinada atividade como prioridade, mas essa questão pode ser um pouco mais profunda. Muitas vezes, deixamos algo para depois porque não temos os motivadores corretos dentro de nós e mantemos crenças que agem para impedir a concretização das atividades. É igual quando queremos emagrecer, mas acreditamos que o processo será muito árduo e difícil e que somos incapazes de concretizá-lo”, compara.

Dentro do ambiente de trabalho, a procrastinação ganha outros aliados que estimulam o adiamento das atividades. É o que explica o especialista em comportamento humano e presidente da SLAC® Coaching – Sociedade Latino Americana de Coaching, Sulivan França. “O mais comum é quando a tarefa procrastinada é mais burocrática e chata de fazer. Em outros casos, o profissional também pode ter pouco conhecimento ou habilidade para desenvolver o trabalho. A falta de motivação pode ser mais uma razão, pois quando o profissional não está confortável com aquilo que faz acaba enrolando o máximo possível”, elenca.

Motivação

Para Carolina, entender o motivo das atividades é tão necessário quanto se planejar.Não podemos fazer uma tarefa por fazer, mas precisamos entender o porquê, quem será atingido por essa ação e o que isso trará de benefícios, tanto para nós quanto para a empresa (nos casos em que a atitude estiver acontecendo no ambiente profissional). Tudo o que fazemos na vida precisa ter um motivo e, a partir do momento que identificamos essa razão, temos motivação para desenvolver a atividade”, contextualiza.

“Precisamos entender o agente da procrastinação: se é porque é necessário se organizar melhor, rever a rotina, enxergar onde se perde tempo, ou se para determinada atividade não existe o motivador certo, o que acaba gerando a falta de coerência para você”, completa Elaine.

Consequências para a carreira

Enquanto no aspecto pessoal a procrastinação afeta a realização dos sonhos e objetivos dos indivíduos, no ambiente corporativo ela é ainda mais perigosa, pois atinge toda a equipe e influencia diretamente nos resultados empresariais. Quem nunca teve um colega que não conseguia realizar as suas atividades e acabava sobrecarregando os demais? Para Elaine, porém, ninguém sofre mais com a prática do que o próprio causador. “A pessoa que procrastina está, em primeiro lugar, se prejudicando e geralmente tem consciência disso, mas algo muito mais forte a impede de mudar. Nessas horas, é necessária a ajuda de um profissional”, alerta.

Para a master coach, as empresas não podem esquecer os seus profissionais e cobrar uma solução mágica. “O funcionário é, acima de tudo, um ser humano e mesmo os colaboradores que têm fama de procrastinar podem ter qualidades importantes para a organização. Os líderes e gestores devem começar a observar quando a pessoa está desenvolvendo algum comportamento ruim e tentar entender o que gera essa conduta. Quanto mais os líderes e as empresas investirem no entendimento humano, mais assertivas elas serão”, defende Elaine.

No entanto, se esconder atrás das atitudes negativas das empresas não resolve o problema. “Por vezes, as organizações contribuem para que os profissionais tenham atitudes procrastinadoras, mas esta não pode ser uma desculpa para os colaboradores. Se a empresa está delegando atividades que não têm a ver com o seu perfil profissional, a medida correta é tentar entender o motivo disso. Quando você entra em um novo emprego, por exemplo, e é desafiado a resolver algum problema que já existia anteriormente, a atitude certa é compreender se essa ação irá lhe ajudar a crescer como pessoa e como profissional. Com isso, automaticamente você irá abraçar aquela oportunidade”, defende Carolina.

Independente da ajuda corporativa, o colaborador precisa perceber que as consequências da procrastinação podem ser sérias. “A prática vai, invariavelmente, fazer com que o profissional perca prazos e/ou entregue trabalhos mal feitos, que nitidamente foram finalizados às pressas. Isso acarreta em uma perda de confiança perante o líder e os demais colegas de trabalho. A procrastinação é também amiga da baixa produtividade, da falta de organização e de sérios problemas do dia a dia no mercado de trabalho. Em casos mais graves essa ‘mania’ do indivíduo pode ser uma das grandes causadoras de demissão”, elenca França.

Autoconhecimento

Quem consegue promover o autoconhecimento está no caminho certo para mudar o jogo e parar de procrastinar, conforme explica Carolina. “Quando a gente tem o autoconhecimento, sabemos identificar o momento do dia em que somos mais produtivos e quando estamos mais descansados. Neste contexto, se o colaborador deixar para fazer uma atividade importante na hora em que ele está improdutivo, as chances desta ação ser postergada são altas. Alguns profissionais gostam de almoçar rápido para sair mais cedo. Outros preferem almoçar com mais calma e sair mais tarde. Não existe o certo e nem o errado, o que existe é o autoconhecimento.”

Além desta importante reflexão, Carolina lembra que é necessário dar a atenção devida às atividades e estar presente de corpo e alma, onde quer que você esteja. “Não adianta ficar resolvendo problemas pessoais no ambiente de trabalho, assim como não dá pra tentar solucionar em casa aquilo que deveria ter sido feito no ambiente corporativo”, esclarece

Elaine concorda que o autoconhecimento é peça fundamental neste processo de transição e, para ela, a cultura brasileira também é responsável por esta conduta. “Fomos um país colonizado apenas para trabalhar e não aprendemos a planejar, não só no trabalho, mas em todos os aspectos da vida, como nas finanças, no tempo com a família, nos cuidados com a saúde, entre outras áreas. Diante de tantos fatores, muitas vezes as pessoas não conseguem mudar porque estão apenas tentando alterar o modo de agir, quando na verdade devem entender a origem e a causa da procrastinação, que pode estar no inconsciente. Por isso todos devem fazer uma análise pessoal para se conhecer melhor”, finaliza.

E você, o que já adiou hoje?

 


Carolina Cabral

 


Elaine Cruz

 


Sulivan Franca

 

Não deixe para amanhã

Faça uma lista com todas as suas atividades: quanto mais organizado você for, mais irá produzir.

Não deixe para última hora os trabalhos chatos ou mais difíceis: faça-os primeiro para que entregue um bom trabalho.

Mescle tarefas que lhe dão prazer com as que procrastina: desta forma você não ficará entediado.

Entenda o motivo das suas atividades: fique ciente dos benefícios que as suas ações trarão para você e para outras pessoas.

Reflita e entenda por que determinadas ações são adiadas: com isso você poderá agir na causa do problema.